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O Endurance precisa da FIA?

Nesta quinta-feira, 17, os fãs de endurance tiveram duas surpresas: a data de lançamento da próxima DLC do simulador Le Mans Ultimate e a informação divulgada pelo periódico alemão Auto Motor und Sport de que a renovação do Mundial de Endurance entre a FIA e o Automobile Club de l’Ouest (ACO) não estaria em um bom momento.

Isso porque o presidente da Federação Internacional de Automobilismo, Mohammed ben Sulayem, exige mais autonomia e, principalmente, dinheiro por parte da promotora do WEC, o ACO. O atual contrato entre as duas entidades vale até 2030. Ainda segundo a reportagem, caso não exista um acordo, o WEC pode continuar, mas sem as 24 Horas de Le Mans, o que não faz qualquer sentido.

Em resumo: a FIA exige mais dinheiro e autonomia nos regulamentos e em tudo o que rege o Mundial. Obviamente existe oposição por parte do ACO, já que o fim do Grupo C nos anos noventa ocorreu justamente em seu auge. Como naqueles tempos ele rivalizava e até superava a Fórmula 1 em emoção e público, o olho grande da FIA cresceu, e Bernie Ecclestone, dirigente da F1, e Jean-Marie Balestre, presidente da FIA, mexeram os pauzinhos. O resto é história.

Críticas à Fórmula 1 e a sanha pelo poder

Mohammed ben Sulayem, uma versão moderna de Jean-Marie Balestre. (Foto: Getty Images)

A notícia veio um dia após a F1 divulgar o seu calendário para 2026 com 24 etapas, além de seis corridas sprints. Tirando o fato de o atual calendário ter grande parte das corridas em circuitos insossos, o modo como a Liberty Media conduz a F1 atualmente vem gerando críticas de pilotos, fãs e equipes; é mais espetáculo (duvidoso) do que corrida de verdade.

E o que se faz quando a grama do vizinho é mais verde do que a sua? Criam-se obstáculos para ela morrer. O pedido de mais dinheiro é apenas a ponta do iceberg. O fato é que o gramado da F1 não é verde há muito tempo.

Do outro lado, o WEC possui uma concentração sólida de fabricantes, regulamento estável e barato e ainda opera em circuitos tradicionais. A sua principal estrela, as 24 Horas de Le Mans, registrou em 2026 um público de 350.105 espectadores, segundo os organizadores. O resultado superou o número anterior, que foi de 329.000 pessoas em 2024.

Bom público, inúmeros fabricantes e um calendário honesto. Coisas que a F1 perdeu com o tempo. A sua principal prova, o GP de Mônaco, tornou-se uma procissão de carros enormes e sem nenhuma ultrapassagem real. Essas características valem para muitas etapas do calendário.

O atual contrato entre as entidades, firmado entre o ex-presidente da FIA, Jean Todt, e o atual mandatário do ACO, Pierre Fillon, dá uma liberdade que os promotores da F1, FE e WRC perderam: o controle sobre os regulamentos técnicos. Em contrapartida, a prova em Le Mans faria parte do calendário do WEC.

A expansão do endurance pelo ACO

Por outro lado, a gestão empregada por Fillon ampliou a presença das corridas de longa duração pelo mundo, além de dividir com a IMSA os regulamentos que vêm desde a época das classes LMP1, LMP2, GT1 e GT2.

A pirâmide do endurance se expandiu para a Ásia com o Asian Le Mans Series, além de campeonatos regionais com protótipos LMP3 em diversos países. Com isso, um piloto não precisa de um caminhão de dinheiro para chegar a uma categoria com status de Mundial. Em outras palavras, a F1 deixou de ser atrativa para pilotos e, principalmente, fabricantes.

Sendo a FIA uma espécie de menino rico que adora ser o centro das atenções, a coisa pode estar caminhando para um “Grupo C 2.0”. Essa síndrome de protagonismo de Mohammed ben Sulayem deu as caras na coletiva de imprensa que antecedeu as 24 Horas de Le Mans deste ano.

“Na Fórmula 1, tratava-se de esclarecer a relação entre a FIA, como proprietária do campeonato, e uma boa promotora como a FOM. Acho que algo estava faltando ali há alguns anos. Agora nos respeitamos mutuamente. A missão aqui no Campeonato Mundial de Endurance é a mesma. Preservamos o espírito do esporte, assim como o lado comercial. Os regulamentos e a gestão da categoria devem estar em equilíbrio com a proprietária, ou seja, a FIA”, disse Sulayem durante a coletiva, reproduzida pelo Auto Motor und Sport.

O recado foi dado

Sendo assim, ele já havia marcado o seu território. Falta o ACO ser subserviente. “Le Mans é, em última análise, uma corrida da FIA”. E: “A FIA tem um campeonato muito bom, um campeonato emocionante chamado WEC. E depois há Le Mans, que costumava ser um evento separado. Os dois foram fundidos”. Ele completou: “Estamos numa boa fase com o campeonato de endurance porque temos muitos fabricantes. Ainda mais se juntarão nos próximos anos. O que precisamos fazer para garantir que isso continue? Entrar em contato com os fabricantes e manter o interesse deles. Não podemos ficar parados e não podemos nos acomodar com a nossa própria glória”.

O recado é bem direto: ou a FIA manda em tudo, ou manda em tudo. Se o ACO não quiser, que pegue a sua corrida de Le Mans e vá embora. Resta saber se os construtores aceitarão passivamente uma eventual mudança de gestão e como ficaria a parceria com a IMSA, na qual os regulamentos técnicos são divididos.

Até 2030 muita coisa acontecerá. Se será benéfica para o endurance não sabemos, ou pior, pode ser benéfica apenas para a FIA e a sua grama que morre a cada dia mais.