Guerras tem data para começas, mas não para terminar. Sendo assim. a definição do calendário do Campeonato Mundial de Endurance da FIA (WEC) exige um esforço operacional sem precedentes por parte das equipes. Diante disso, a Ferrari detalhou o custo financeiro e o desgaste adicional com a elaboração de dois planos logísticos simultâneos para o encerramento da temporada 2026. Essa medida de contingência surge como resposta direta à instabilidade geopolítica no Oriente Médio.
Os conflitos na região da península arábica já causaram impactos severos no cronograma original. Os organizadores, por exemplo, transferiram a etapa de abertura — os 1812 km do Catar — de março para outubro. Contudo, a persistência das tensões mantém dúvidas reais sobre a viabilidade dessa nova data e, igualmente, sobre o encerramento do campeonato no Bahrein, previsto para novembro.
Plano B na Europa centraliza atenções
Diante desse cenário de incertezas, a cúpula do campeonato estruturou um plano alternativo. Esse projeto emergencial prevê a realização das duas últimas rodadas em solo europeu, com passagens prováveis pelos circuitos de Barcelona-Catalunha e Monza. A palavra final sobre o rumo do certame ocorrerá após a apresentação formal do plano ao Conselho Mundial de Automobilismo da FIA, que avaliará a proposta para homologação.
O chefe de equipe da Ferrari AF Corse, Batti Pregliasco, explicou que a indefinição impôs uma rotina de precaução absoluta. Em entrevista, o dirigente revelou que todas as escuderias, em parceria estreita com a organização do WEC e com a DHL, operam com o dobro de kits de equipamentos de suporte.
“Enviamos uma parte do material para o Brasil, com destino direto para Fuji posteriormente. Ao mesmo tempo, mantemos um segundo kit reservado para Austin. Na sequência, aguardamos a confirmação sobre o destino final: Catar, Bahrein ou Europa. O frete marítimo via contêiner representa a única alternativa segura para alcançar essas regiões sem o risco de bloqueios em rotas de navegação vitais. Portanto, antecipamos os problemas estruturais.”
Pregliasco admitiu que a duplicação dos insumos gera custos extras consideráveis. Apesar do impacto financeiro direto no orçamento, o chefe de equipe ressaltou que o planejamento paralelo garante a execução das atividades com segurança.
Mudança de palcos reduz oferta de pontos na tabela
Além do desafio logístico, a eventual transferência das etapas do Oriente Médio para a Europa altera de forma significativa a dinâmica desportiva do campeonato. Originalmente, as provas no Catar e no Bahrein possuem distâncias longas e, por essa razão, distribuem pontuação extra na tabela de classificação.
Por outro lado, o outono europeu impõe restrições severas, como temperaturas baixas, instabilidade climática e dias mais curtos. Devido a essas limitações naturais, a tendência é que as corridas de dez e oito horas fiquem descartadas. Dessa forma, o campeonato adotaria o formato tradicional de seis horas de duração, o que diminui o total de pontos disponíveis na disputa de hipercarros.
A busca por sedes alternativas no continente asiático também foi avaliada, mas a Ferrari apontou barreiras operacionais idênticas. De acordo com Pregliasco, destinos como Sepang ou praças na China enfrentam os mesmos gargalos de transporte marítimo e custos elevados de frete aéreo.
Preservação do investimento e do campeonato
A maior preocupação do comando da Ferrari reside na possibilidade de retenção de ativos valiosos fora do continente europeu. O receio de ver os contêineres retidos em portos árabes durante o inverno mobiliza a tomada de decisões conservadoras por parte da coordenação esportiva.
“Um eventual bloqueio de materiais no Catar e no Bahrein colocaria em risco o início da temporada seguinte. O cancelamento de rodadas tradicionais como Ímola e Spa destruiria o emprego de centenas de profissionais, além de invalidar o investimento maciço da Ferrari no projeto de hipercarros. Desse modo, proteger a integridade do campeonato sobressai a qualquer tomada de risco desnecessária.”
Por fim, Pregliasco destacou o apreço da equipe pelos traçados originais do Bahrein e do Catar, locais onde o modelo italiano costuma apresentar excelente ritmo de corrida. No entanto, o encerramento do ano na Europa impõe um cenário matemático mais complexo para a Ferrari, que precisará de máxima eficiência para reduzir a vantagem das rivais Toyota e BMW no Mundial de Construtores.
