E se Chirstine tivesse descendentes?

15 de setembro de 2021 0 Por Fernando Rhenius

O dito popular já fala, “não é o dono que escolhe o cachorro, é o cachorro que escolhe o dono”. É mais ou menos assim com carros. Quais lembranças o primeiro possante deixou? Ele era o carro que você realmente gostaria de ter tido? Muitas vezes não. O primeiro “amor” entre o homem e a máquina surge de vários fatores. A pessoa pode ter visto na TV, na rua ou o vizinho teve. 

Pode demorar anos, uma hora aquele carro dos sonhos aparece na sua vida, podendo ou não estar em boas condições. Ali o casamento entre homem e máquina começa. E não estamos falando de uma Ferrari ou Porsche, podendo ser um simpático fusquinha. 

É mais ou menos esse amor que Arnie Cunningham tem com Christine. Um belo Plymouth Fury 1958, vermelho e branco com vários cromados. O estilo banheira era comum na indústria automobilística americana nos anos 50 e 60. Carros enormes com potentes motores V8. 

Mas nem tudo era como deveria ser. O velho Fury além de estar em péssimas condições tinha um passado obscuro e sangrento. Assim que Arnie entrou no carro a magia aconteceu, e não foi nada boa. 

Christine e suas linhas características dos anos 50. (Foto: Divulgação)

Este é o mote do livro Christine, escrito por Stephen King em 1983 e ganhando uma adaptação no mesmo ano. O filme foi dirigido por John Carpenter, que tem em seu portfólio obras como Halloween I e II (1978 e 1881 respectivamente), Fuga de Los Angeles (1996) e Ghosts of Mars de 2001. Ao todo são 24 obras que vão do terror à ficção científica.

Muitos assistiram ao filme nos anos 80 e 90 no SBT e no Cine Trash da Bandeirantes, desconhecendo totalmente que o livro revela uma faceta ainda mais sombria do carro e de Arnie, que poderia fazer parte facilmente do clube dos otários de IT. 

Típico nerd, Cunnigham vivia apanhando na escola, tendo apenas um amigo, Dennis Gulider, seu oposto. Era popular, jogava no time de futebol e tinha seu próprio carro. Arnie constantemente era salvo por Denis dos valentões, que sempre descontaram no jovem franzino e cheio de espinhas suas frustrações. 

 Sem qualquer perspectiva de arrumar uma namorada e sendo controlado pela mãe possessiva, Arnie encontrou naquele velho Plymouth, uma forma de se rebelar e ter o próprio carro. Mal sabia ele que o carro já o tinha escolhido. 

 Lutando contra a típica implicância dos pais, ele comprou o carro de um estranho sujeito. É comum darmos nomes para objetos inanimados, mas todos ficaram surpresos quando Christine começou a parecer rejuvenescida, com uma bela pintura, pneus novos e um interior imaculado. 

 Na mesma proporção que o carro se transforma, mudanças também ocorriam com Arnie. Aquele adolescente perdera as espinhas, estava mais adulto e mal. Parecia que algo tinha possuído seu corpo. Já Christine adquiriu um ciúme doentio pelo rapaz, dando um “jeito” em quem se metia entre os dois. Mesmo matando muitas pessoas (Arnie ou Christine?) Ela possuía o poder de se reconstruir, passando ilesa de qualquer suspeita. 

 Filme x livro

O carro possuía um ciúme doentio por Arnie, e quem ficasse entre eles. (Foto: Reprodução)

Quem assistiu apenas o filme, assistiu um clássico, mas clássicos deixam lacunas. King soube explorar muito bem os dramas de famílias ditas estruturadas, bem resolvidas financeiramente, mas com seus conflitos. Arnie tem pais professores, que obviamente já traçaram sua vida até a universidade, e não existe livre arbítrio. Com uma mãe controladora e um pai sem poder de decisão, a maneira que Arnie encontrou para ir contra o “sistema”, foi se dedicar à Christine. Obviamente seus pais foram contra e a guerra começou. 

Regina, a mãe de Arnie, não queria largar o comando da vida de todos, mas aquele carro, mesmo que ela não tivesse a menor ideia do acabaria se tornando, não estava nos trilhos. Precisava ser extirpado da família o quanto antes. No filme esse tipo de situação é tratada, mas de forma superficial. Claro, não dá para adaptar mais de 600 páginas em um filme de pouco mais de 1h30m, e o telespectador terá esse tipo de situação no longa, mas é muito mais explorada no livro.

A família de Denis é o oposto. Seu pai e mãe são mais liberais, tanto que ele tem seu próprio carro, pode ir e vir a qualquer momento e existe uma linha de diálogo muito maior dentro de casa. Denis tem opinião e pode falar, mesmo sabendo que pode ou não ser questionado. É popular na escola enquanto Arnie apanha de todos. Sucesso com as garotas? Era algo distante para o franzino adolescente de óculos e espinhas. Ele até consegue, mas um certo carro vermelho e branco não curtiu a ideia. Essa ânsia de ter um carro ao completar 18 anos, era mais comum nos anos 80 e 90. 

Com o uso de meios transportes alternativos, conscientização ambiental e valores abusivos, as novas gerações não enxergam o carro como um símbolo de status, de poder ou vitória pessoal. Algo bem diferente do que ocorria no passado. A única coisa que não mudou foram os conflitos familiares e as frustrações do ser humano em descontá-las nos mais fracos. 


Encurralado de 1971 segue o padrão de monstro velho e enferrujado, o contrário de Christine

O filme foca mais no carro matador que se reconstrói, e deve ser assim já que é uma adaptação de terror. O final nos dois casos é parecido, mas não igual. Muitas lacunas estão no filme e não no livro. A história é narrada por Denis e ao contrário de outros livros de King, não existe aquela prolixidade característica. 

O espectador/leitor irá se decepcionar com o fim de ambos? Não. As duas opções se completam. Se assistiu ao filme, leia o livro. Leu o livro? Assista o filme. O final acaba deixando uma dúvida e até mesmo um exercício de pensamento. Christine teria descendentes? 

O Plymouth Fury 

Nada disso seria possível se não fosse o Fury. A escolha de King por um modelo clássico, dos anos 50, vai contra a história em que o vilão, no caso um carro, tenha aspecto velho, monstruoso. Quem não lembra do filme Encurralado de 1977. Onde um caminhão velho e enferrujado, perseguia e tentava matar um motorista. Curiosamente o carro vermelho utilizado nas filmagens foi um Plymouth Valiant de 1971.

O Plymouth Fury foi fabricado pela Chrysler entre 1955 a 1989. Foi introduzido no ano de 1956 como uma sub-série do Plymouth Belvedere, tornando-se um carro mais luxuoso. O Fury “grande” foi fabricado entre 1959 a 1961, depois virou carro de tamanho médio de 1962 a 1964. Voltou a ser uma banheira de 1965 a 1974. As mudanças no mercado de automóveis nos EUA o deixaram menor de 1975 a 1978.

De 1975 a 1977 o Fury foi vendido junto com o Plymouth Gran Fury, este em tamanho maior. Em 1978, o B-body Fury era o maior Plymouth e em 1979, apenas a versão “menor” estava sendo comercializada. 

Em 1980 com o Gran Fury R-body, seguido pelo M-body Fury em 1982. A produção do último V8, RWD Plymouth Fury terminou em 23 de dezembro de 1988. Ao contrário da sua marca irmã, Dodge, o Plymouth não viveria para ver o ressurgimento do grande sedã V8. Com o passar dos anos ele foi perdendo uma de suas maiores características, os belos cromados, se tornando um sedã calmo em suas últimas versões.  O Fury vem do latim e significa raiva, raiva extrema, força ou violência em ação, nada mais justo visto que Christine, não era de muitos amigos.