Stephen King e o jornalismo

Stephen King e o jornalismo

29 de novembro de 2019 0 Por Fernando Rhenius

A busca pela informação e a relevância disso para o público nem sempre andaram em linhas paralelas. Não é de hoje que o jornalismo popular, aquele sem aprofundamento, com notícias factuais e voltado para as massas, é o que “paga” a conta das redações. O jornal Notícias Populares com o seu famoso “bebê diabo”, marcou época na imprensa nacional com títulos apelativos em fontes garrafais, fotos bizarras e mulheres seminuas em suas capas.

Nos dias de hoje, o Facebook e o Whatsapp com seus grupos e páginas “jornalísticas” poderiam facilmente superar os jornais popularescos, dos anos 70 e 80. É só ver a disseminação de vídeos e notícias sem qualquer critério, apenas para ganhar cliques.

Nesta toada é que entra Stephen King. Conhecido por suas histórias de terror baseadas em pessoas normais como médicos, professores, motoristas e crianças, um jornalista não poderia ficar de fora. E em se tratando de King, o terror e monstros são tão importantes quanto um lead bem-feito.

Nunca acredite no que publica, e nunca publique o que credita”

O Piloto da Noite (The Night Flier) foi escrito em 1988. A história gira em torno do jornalista Richard Dees, um dos mais experientes do Inside View, jornal que sai sangue quando dobrado. Notícias extremamente duvidosas, inventadas e sem qualquer senso de apuração.

“Os leitores da Inside View eram alucinados por Alienígenas e por Inteligência (talvez porque a maioria deles se sentisse como os primeiros e intuísse uma profunda deficiência da segunda) é isso que tinha importância”. Página 118.

Conto ganhou uma adaptação em 1997. (Foto: Fernando Rhenius)

O conto apareceu pela primeira vez na antologia “Prime Evil” que contou com a participação de Clive Barker e Peter Straub, entre outros nomes da literatura de terror. Em 1993 ele foi adicionado ao livro Pesadelos e Paisagens Noturnas volume 1.

Richard Dees tem faro para notícias que rendam boas matérias e tiragens formidáveis. Mesmo com um olhar aguçado, ele deixou passar assassinatos ocorridos em pequenos aeroportos, campos de pouso muitas vezes utilizados por pequenas aeronaves e traficantes de drogas. Não eram mortes comuns. As vítimas foram encontradas sem nenhuma gota de sangue e dois furos no pescoço. O assassino teria um pequeno avião Cesna, o que explica as mortes em aeroportos distantes em um curto espaço e tempo.

“- Não me interessa se ela é verdadeira ou não – falou Morrisom – desde que ela venda o jornal. Evai vender um bocado de jornal, não vai, Richard?” Página 120.

 Com a pauta em mãos Dees pegou seu pequeno avião, e foi caçar o vampiro que apelidou de Piloto da Noite. Ele sabia que apelidos são mais importantes do que o verdadeiro nome do sujeito. Você lembra do nome do Bandido da Luz Vermelha, Manîaco do Parque ou Escadinha? Pois é!

Ao contrário do Brasil, onde possuir um pequeno monomotor é caro, nos EUA os custos são menores. Para pousar em um pequeno campo de pouso, basta pagar uma pequena taxa, e como Dees descobrirá, uma taxa é sempre uma taxa. Isso facilitou muito a carnificina provocada por Dwight Renfield, nome do suposto assassino, As desconfianças de Dees sobre o seu “vampiro” estavam começando a ganhar forma quando testemunhas afirmaram que o homem usava uma capa preta, e terra sempre aparecia ao redor do seu avião.

Mesmo sendo uma história de terror, conto possui situações engraçadas. (Foto: Fernando Rhenius)

A história é curta e cheia e pitadas de humor (negro) e situações encontradas nas redações jornalísticas.  Dees é um jornalista a moda antiga para o bom e para o mal. Ele vai atrás, apura e não se acomoda, não fica apenas na pauta “Google”, quando o jornalista  se baseia apenas em informações prontas, obtidas sem qualquer critério de apuração.

A personalidade de Dees é evidenciada por uma frase: “Nunca acredite no que publica, e nunca publique o que credita”. Mesmo sendo um vampiro o causador das mortes, o que pode parecer um pouco estranho para quem não está habituado com a obra de Stephen King, notícias sobre massacres, abusos, tão comuns, fariam Dwight Renfield, parecer um amador.

“Os leitores da Inside View se satisfazem em saber o que tinha acontecido, quando tempo tinha levado e se a pessoa a quem isso tinha acontecido tive tempo para gritar. E, é claro, fotografias. Queriam fotografias. Se possivel, grandes, em preto e branco, de alto-contraste – do tipo que parecia saltar da página num exame de pontinhos e acertá-lo bem na testa”. Página 130.

E o filme? 


A adaptação para o cinema foi lançada em 1997 e manteve o nome do conto. A direção e roteiro ficaram a cargo de Mark Pavia. Richard Dees foi interpretado por Miguel Ferrer. O diretor manteve o ar rabugento e individualista do repórter, que ao contrário do conto, ganhou uma rival, Katherine Blair.

A “Foca”, como é chamado quem inicia no mundo jornal, foi interpretada por Julie Entwisle. A adição da personagem dá um novo sentido à história, já que Dees terá uma rival na busca pelo assassino vampiresco. A corrida pela notícia, é retratada de forma brilhante pelo diretor Mark. Até Derry aparece no filme!

Assim como aconteceu com o final do filme “O Nevoeiro” de 2007, foi superior ao final do conto. Para ficarmos no tema “jornalismo”, é o mesmo que aconteceu no “O Quarto Poder” e “A Montanha dos Sete Abutres”. A luta pela informação geralmente também vira notícia.

Dwight Renfield chega a ser humanizado em alguns momentos. Sai um pouco o monstro e entra o homem que possui um passado normal, mas que de alguma forma o transformou em um monstro. A caracterização do vampiro e os efeitos para a época, não podem ser considerados coisas de filme “B”. Dá medo!

O livro

“O piloto da Noite” está presente no primeiro volume de Pesadelos e Paisagens Noturnas, editado pela Suma. É desta coletânea que saiu a adaptação do conto “O Cadillac de Dollan”, e “A Dentadura Mecânica”, história que faz parte do filme “A Maldição de Quicksilver”.

O DVD

DVD vem em embalagem premium. (Foto: Fernando Rhenius)

A DarkFlix lançou a adaptação “Voo Noturno” como parte da Coleção Stephen King, que assim como a “Biblioteca” da editora Suma, a produtora tem em seu catálogo de filmes clássicos, séries e importantes adaptações do mestre como Rose Red, Eclipse Total, Trocas Macabras e Olhos de Gato.

O DVD vem em uma embalagem diferenciada, CD com a trilha sonora e cartão colecionável.